É comum ver números grandes e assustadores sobre burnout circulando sem fonte clara. Antes de usar qualquer estatística para justificar uma ação dentro da empresa, vale entender de onde ela vem — e o que ela realmente mede. Aqui está um panorama dos dados disponíveis sobre o esgotamento profissional no Brasil, organizados por nível de confiabilidade.

O dado mais sólido: judicialização

Os números mais verificáveis vêm de levantamentos sobre processos judiciais, porque medem fatos registrados, não estimativas. Um estudo da Predictus, empresa de big data de processos judiciais, contabilizou 22.815 ações trabalhistas relacionadas à síndrome de burnout entre janeiro de 2016 e abril de 2026, somando R$ 9,94 bilhões em valor de causa. A evolução anual mostra a tendência com clareza: de 943 processos em 2016 para 4.940 em 2025, com um pico de 5.999 ações em 2024. Isso não mede quantas pessoas têm burnout — mede quantas recorreram à Justiça por causa dele, o que ainda assim é um indicador relevante de como o tema ganhou peso jurídico.

Estimativas de prevalência: use com cautela

Já os números sobre quantos brasileiros sofrem de burnout variam bastante entre si, e nenhuma fonte consultada apresenta uma metodologia nacional robusta e publicada. Uma pesquisa da Gattaz Health & Results estima que 18% dos profissionais brasileiros — cerca de 1 em cada 5 — sofrem com a síndrome, associando o problema a fatores como comunicação deficiente e baixa autonomia no trabalho. Outras fontes, citando a International Stress Management Association, falam em cerca de 30%. Uma terceira estimativa, menos rigorosa, menciona 15 milhões de trabalhadores em todo o país. A distância entre 18% e 30% já indica que essas cifras devem ser tratadas como estimativas, não como consenso científico.

Afastamentos: o dado administrativo mais confiável

Os registros do INSS, por serem administrativos, tendem a ser mais sólidos do que pesquisas de mercado. Segundo um Boletim de Conjuntura que cita dados da Fiocruz, houve, em 2022, um total de 209.124 casos de afastamento do trabalho devido a transtornos mentais no Brasil. É importante notar que esse número é um agregado: inclui depressão, Alzheimer, burnout e outras condições juntas, então não isola especificamente o burnout — mas mostra a dimensão do problema de saúde mental ocupacional como um todo.

Quem está mais exposto

Pesquisas acadêmicas apontam que categorias profissionais com contato direto e constante com o público — professores, profissionais de saúde, motoristas, policiais — concentram os maiores riscos de burnout. Um estudo com 337 profissionais da Estratégia Saúde da Família encontrou que 37,09% pontuaram índices altos e médios na escala usada para medir o esgotamento, reforçando esse padrão em uma categoria específica.

Como a OMS enquadra o problema

Desde 1º de janeiro de 2022, com a entrada em vigor da CID-11, a Organização Mundial da Saúde reconhece a síndrome de burnout como um fenômeno ocupacional — resultado de estresse crônico no local de trabalho que não foi administrado com sucesso. Essa classificação não trata o burnout como uma condição médica isolada, e sim como consequência de como o trabalho foi organizado, o que conecta diretamente esse tema à exigência de gerenciar riscos psicossociais prevista na NR-1.

O retrato que esses números formam, apesar das divergências entre fontes, é consistente em uma direção: o esgotamento profissional é um problema crescente, mensurável judicialmente e concentrado em categorias específicas — o que reforça por que identificar riscos psicossociais antes que eles se tornem adoecimento é hoje uma prioridade de gestão, não apenas uma pauta de bem-estar.